Parece que todos os dias acordamos para conviver com notícias tristes. Vivemos bombardeados pela negatividade das notícias recentes. Já calejados e insensíveis à tanta negatividade, quase não reagimos às barbaridades que ouvimos nos noticiários.
Quando chegam a nós notícias de uma tragédia é que abrimos os olhos e começamos a querer saber, buscar a verdade frente aos eventos. Não satisfeitos com as notícias oferecidas pelos veículos tradicionais, na Internet e fora dela, pulverizamos a rede com nossas visões do evento. Fazemos clipping, compilando notícias de vários veículos em canais abertos de publicação (wikis, blogs, flogs, etc) como forma de apresentar como dispomos e juntamos os fatos que pipocam nas mídias. É pena que agora só nos reste chorar o "leite" deramado...
Nas crises ocorrem mudanças, brotam soluções. É interessante, embora trágico na circunstância, o movimento das redes sociais na Internet em prol de externar a consternação dos usuários frente aos eventos recentes na aviação no Brasil. Tanto se fez nesse ímpeto de tristeza que fica no ar uma névoa de culpa por não ter feito antes a mesma mobilização de agora à tempo de contornar os efeitos nefastos da crise. Em matéria no site Eu-Repórter do oglobo.globo.com uma leitor expressa seu sentimento de impotência frente aos fatos e faz uma mea culpa da tragédia, afirmando que somos todos culpados pelos eventos decorrentes da falta de infraestrutura no Brasil, por comodismo ou omissão.
Essa consciência da responsabilidade sobre o problema chama atenção do público leitor -consumidor de notícias- para refletir sobre o quanto ele deixa de colaborar com a qualidade do seu país por se omitir assumindo papel passivo nos acontecimentos. Essa mea culpa é ainda mais contundente por estar veiculada em um jornal tradicional (O Globo) fora da rede, mostrando o poder da palavra do cidadão para não só lamentar os fatos ocorridos, mas para manifestar a insatisfação e a iminência de problemas. Um acidente no aeroporto de Congonhas, encravado no meio de São Paulo, com o movimento que tem, já era mais do que anunciado. Um dia antes do acidente um avião menor já derrapara na pista. As condições da pista em dias de chuva vinham sendo questionadas. E agora vem-se saber que o avião estava com o reverso (dispositivo que inverte o fluxo da ar nas turbinas) desligado desde o dia 13, e que o mesmo avião já havia apresentados problemas ao tentar aterrizar em Congonhas.
Resta a todos a questão: Por que não falei nisso antes? Era óbvio! Espero que essa questão não desocupe a cabeça a dos responsáveis pelo acidente. Nós usuário, que pouco podemos fazer, e por este pouco nos culpamos, devemos seguir o exemplo de alguns poucos que dedicam seu tempo a publicar notícias nesta rede. Aqueles que publicam fotos, vídeos e textos. Aqueles que, inconformados com o absurdo que nos habituamos a chamar de normalidade, registram na rede a sua história.
Quatro horas e meia depois do acidente a Wikipédia lusófona apresentava um artigo sobre o acidente. Mais de 500 edições depois o artigo possui uma detalhada reportagem e link para a lista de vítima do acidente. Nove fotos, manifestações oficiais de governos, órgãos públicos envolvidos e da empresa aérea TAM. É verdade que há um grande volume de edições em artigos de eventos recentes, mas este cresceu rápido, está bastante completo, e seguindo-se as atualizações a medida que novas informações surjam, deve formar um ótimo registro histórico.
Na Wikimapia está marcado o local exato do acidente com alguns detalhes e link para o artigo da Wikipedia. Nas Comunidade do Google Earth (aplicativo de vizualização de mapas do Google) está publicado um pacote adicional que permite ao usuário deste aplicativo vizualizar a rota de colisão do avião sobre o mapa, além do local do impacto.
No Flickr dezenas de fotos do acidente, fotos de luto e de protesto surgiram desde a terça-feira fatídica. No Youtube vídeo com imagens das vítimas, extraídas da própria Internet, acompanham a mensagem de condolência de um usuário. Um vídeo mostra o local do acidente visto da janela de um apartamento próximo ao aeroporto de Congonhas.
É interessante para um povo tido como “sem memória” que estas manifestações de civilidade sejam enaltecidas. Essas informações compões grande parte do conteúdo menos perecível da rede sobre esse evento dantescos. Ficarão para a história, para consulta e atualização. Mostram o poder que o usuário tem para expor suas idéias, comunicar e escrever a história como ator, não como mero espectador. Põe a tona várias discussões tanto sobre a segurança da aviação, quanto sobre a responsabilidade individual nos sinistros que populam os noticiários. Quantos desses desastres poderiam ser evitados se aqueles que convivem com o problema de perto saíssem do anonimato e comunicassem de antemão os potenciais desastres. Depois que o “leite” derrama, e respinga, os dedos começam a levantar.
O ocorrido levanta diversas discussões dentro e fora do território brasileiro. Aeroportos encravados em centros urbanos ao redor do mundo visualizam problemas futuros. Pilotos, controladores, funcionários se manifestam sobre o ocorrido e problemas do que já atende por “Caos Aéreo”. que antes era um problema de logística e cada vez mais se apresenta como um problema político. Os próprios controladores de vôo, militares, põe em risco a sua liberdade para reivindicar melhores salários e condições de trabalho. O que antes se apresentava como um problema de quem voa agora passa a esfera de problema público, que mancha inclusive a imagem do Brasil nas candidaturas para sediar a Copa do Mundo de Futebol de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016.
Os críticos do Jornalismo Cidadão na rede temem pela qualidade do seu conteúdo. Esse evento e sua repercussão na rede mostram o quanto a convergência da vontade pública podem gerar resultados concretos e palpáveis. O respeito, maturidade e velocidade com que o Jornalismo Cidadão cobriu este evento são vetores que indicam um ambiente saudável para que num futuro breve surjam coberturas jornalísticas preventivas mais do que curativas, como é o caso.
Trágico acontecimento. Manifesto minhas condolências às famílias das vítimas. Conforta-me a boa reação da comunidade de usuários na Internet. Espero que esse movimento prossiga, e que ao publicar nessa rede, façam bom uso da liberdade para não fazer em vão a morte desses cidadãos.
quinta-feira, 19 de julho de 2007
Acidente do vôo TAM 3054 em Congonhas
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2 comentários:
quem sabe este "mundo gerado pelo usuário" em que vivemos hoje não seja também efeito catalisador do sentimento de culpa.
Teríamos nós, usuários do mundo e atuais geradores de seus conteúdos, sido responsáveis pela geração deste evento?
Ou talvez pela não geração de eventos que pudessem evitá-lo?
O que não pode acontecer, por esta assemelhação crescente do mundo real ao mundo virtual, é inocentar o sistema gestor humano (o Estado, a Empresa), em vista de uma equivocada interpretação dele como mera máquina.
Logo no início das investigações, no afã de responder sem demora ao acontecido, de mostrar a providência, o teor das notícias já começa a perder o rumo ideal e tomar aquele rumo nojento que tomam todos os assuntos trágicos no Brasil (e o Brasil é uma grande tragédia que samba pra não chorar).
Cada qual, Estado e Empresas tentam tirar o seu da reta e achar "o" culpado. "Foi a pista!" diz a TAM. "Não mesmo, foi o avião com defeito" diz a administração do Congonhas. "É o governo!" dizem quase todos. "Foi o piloto que errou" buscam uma solução covarde alguns (põe no do morto).
Ninguém vai dizer que foi o conjuto dos fatores? a meleca toda que só vem crescendo? Que se culpe todos e se punam todos.
Só quem não pode ter culpa mesmo é o usuário do sistema, de todos estes sistemas. Mas por ser a mais humana das partes, consegue ainda assim sentir-se culpada. O que ela é na verdade é cansada e impotente, e por isso se culpa.
Por mais trágico que seja, é irônico a cincidência com o PAN. Se tem algum lado positivo, é que serve de "abrolhos brasilis".
Para desdizer quem acha que o PAN era o melhor lugar pra se investir agora, e quem deu aquele discurso clichêzão brasileiro: "taí o Brasil mostrando pro mundo que a gente pode sim se organizar e fazer um belo evento".
É, claro, mostramos pro mundo, ponto pro Brasil!
É verdade Guilherme. Longe de mim expiar a culpa do lado forte desse contrato. Só quero sublinhar que nossa pouca expressividade pode gerar, se reunida, grandes coisas. E, de mais a mais, quando a culpa paira no ar, não há quem fuja a respira-la. Acredito que a maioria se omita por se considerar impotente frente ao governo e empresas, quando na realidade representa seu principal financiador, pagando em dinheiro e votos.
O Jornalismo Cidadão já tem papel importante no direito do consumidor, então fica aqui o relato de um insatisfeito com o serviço prestado pelo monotolista Estado ao cidadão. Enquanto uns tem a faca outros tem o queijo. Seja na rede, ou fora dela, já tarda o momento de nos juntarmos para fatiar esse imenso queijo de problemas e entrega os pedaços aos devidor responsáveis, mesmo que via e-mail.
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